
Fazer da câmara os meus olhos, dá-me prazer, bem como expressar numa imagem a minha interpretação pessoal do mundo. Olhar não é só ver, é também perceber e abraçar. É tocarmos o Universo com os sentidos e sentir a essência das coisas. Coisas… Todas as coisas, toda a matéria, todo o existente que existe, que respira ou finge respirar. Numa fotografia não estão apenas pixéis, nem tinta, nem papel. Há cor e cheiro, sentimentos e emoções, sabores, um lugar, uma história, um poema, escrito com a nossa alma e com o suspiro do momento.
Deslizei a mão pelo cabelo, em quatro tempos. Olhei para ti e fiz uma expressão singular. Falei em versos soltos, com palavras recicladas e desviei-o de novo, pois o vento soprava, forte, e queria esconder de mim a Natureza - a Natureza natural e a Natureza de mim própria. Depois, quis fotografar a minha alma, para poder dizê-la de cor, dizer quem sou. Mas, no momento do flash, o vento pôs-se à frente da lente e fez-me nuvem: vulto de névoa com verde por trás.
Hoje, não sei quem sou, por causa deste dia, pois na fotografia da minha alma,
só vejo dúvida e vento.
Odeio esquecer. Por vezes é o melhor, eu sei, mas nós somos feitos de matéria, de memórias e vento. Se não os temos, somos amnésicos de alma. Somos fumo. Somos nada, vento de sentimento oco. Às vezes entra por mim uma ideia, que depois se vai embora, sem deixar registo, para além de vazio. As chamadas “brancas”… Irritam-me profundamente, fazem-me comichão no ego e dão-me voltas à barriga. É estar e fazer sem lembrar a razão, é sensação de perda e de limitação. Não quero esquecer, não quero… não quero… mas o tempo passa e apaga. Há coisas que quero que fiquem, mas vão, mesmo sem querer. Então escrevo, como que hipnotizada pelo relógio de bolso, ferrugento. Escrevo sem história, inconsciente, sem memória... Escrevo sem saber.
Tenho tanta pena do chão que todos os dias é pisado por nós; das palavras, usadas vezes e vezes sem conta; das peças de roupa, que andam às voltas na máquina, até ficarem sem cor; do verniz que seca, quando fica esquecido numa mala qualquer; e do amo-te vulgarizado, todos os dias, por densas almas sem forma.
Tenho pena de mim. Tenho pena de ti… por isso, vou-me calar para sempre e nunca mais abrirei a boca. Vou suicidar o meu pensamento circular na inconsciência suja e nunca mais abrirei a mente. Vou fugir, para lugar nenhum, e nunca mais abrirei as feridas, as feridas que nunca irão sarar.
Viajo sem cinto e nem sequer sinto
A falta da vida em peso de pluma.
Viajo sem cinto, sem a segurança que não quero,
Que não me faz falta nenhuma
Cheguei ao ponto de não querer saber
Olhar para o vidro do carro e estar-me nas tintas para o mundo
Para poder pintar a minha alma com as cores que quero:
Prata sem brilho em cima e cinzento-escuro no fundo.
Já perdi o medo de ser cuspida para o chão
E ser engolida por um outro lugar,
Um lugar sem sentir que sinto
Que choro e que me minto sem saber falar
Então viajo e, sem querer, não sinto
A alma sem cor, a existência descolorida.
Então viajo, sem pôr o cinto
Sem me prender ao banco, sem me agarrar à vida.
Sozinha, à mesa de um restaurante qualquer, sentada no canto direito, ao fundo da sala, olho para a jarra de água com a flor vermelha, da mesma cor que o batom que hoje pus. Ao recordar memórias gastas, deito a última lágrima, como o último pedaço de sobremesa e dou o meu último soluço, enquanto limpo a boca no guardanapo de papel. Estou farta que me mintas; farta que me trates como se fosse Rainha do Mundo; farta que me exijas a Natureza se eu só consigo dar-te uma pétala morta do chão. Dá-me água, dá-me luz! Não a saliva das tuas mentiras, nem o teu sorriso artificial. Desiludiste-me, mas… Sinceramente? Já estava à espera.
Pára de mentir! Para quê promessas de pétalas? Tão leves e frágeis que, quando se despegam da flor, voam para o regresso do nunca mais... Tal como a chuva, quando cai sobre as pétalas, tu estavas lá em cima, no topo, mas isso era antes. Depois, as gotas vão caindo, escorrendo pelo caule, até ficarem por debaixo do chão. Sim, é aí que agora estás. Antes, eras a água que me alimentava e eu, o ar que respiravas. Agora, sou só um guardanapo usado, com uma marca de batom.
I like the sunset. I like the way it goes away, without saying «good-bye».
I like the wind. I like when it blows and grows cold, drawing in the sky.
Yeah, I'm in pain. Yeah, I'm in sorrow.
Follow me, lost soul, or see you tomorrow...

felicidade inconsciente
que o tempo afasta de mim,
por que dizes que me ajudas
se a dor continua aqui?
persisto.
fecho os olhos e voei...
sou alma perdida
cujo nome não sei.
desisto.
já nem me lembro de ti...
sou ninguém, tu és nada.
caí.